A maga e o lobo

Em uma fria manhã, de inicio de outono uma aprendiz de maga entra em uma densa floresta, em busca de alguns componentes para uma poção.

A jovem contempla tudo a sua volta, apreciando cada detalhe da composição atentamente.
Segue por caminhos de elementos suaves, repletos de flores e longas arvores, afastando-se cada vez mais da cidadela e suas conhecidas fisionomias.
Até chegar próxima a um pequeno riacho.

Em seu caminho encontra a temível figura de um lobo a sorver das águas deste córrego. Ao notar sua presença a criatura lhe olha ferozmente, enquanto a maga o observa apavorada, sem conseguir ter qualquer reação.

Todavia a animosidade de ambos é quebrada, como a um estalar de dedos. Um mágico tom envolve a ambos, um enlace de paixão por algo novo e desconhecido.
Um sentimento de curiosidade e anseio os preenche, enquanto se observam atentamente.

A maga estava encantada com a selvageria, o mundo livre e intrigante da figura peluda e sua empatia com a natureza.
O instinto que lhe cobria as veias, a forma como o lobo via tudo com seu entendimento, guiado apenas por sua sensibilidade, de forma espontânea, livre.

Quanto ao lobo, este observava atentamente a maga, sem desviar a atenção. Reparava em suas vestes, o tom de sua pele, a filosofia que expirava sem falar e sua compreensão intelectual sobre o mundo, a ânsia pelo saber, a busca de compreender como tudo funciona.

Ficaram desta forma se observando por instantes, enquanto circundavam a volta um do outro, para melhor conhecer a dimensão de expressões que cada um possuía.
Faltava alguma coisa ao mundo da maga, assim como a selvagem criatura, em relação ao que o seu imediato dispunha.

Resolveram por fim mergulhar profundamente na existência do outro.
A Maga incorporou a pelagem do lobo rumo a seu mundo, sentindo a existência como nunca houvera sentido, a forma como apenas o sentido, as impressões a flor da pele, o instinto, poderiam interpretar. Passou a deixar assim seu intelecto de lado, obtendo novas impressões sobre o todo, como jamais poderia imaginar. Como apenas poderia sentir... Tudo fluindo através de si.

Respirava o mundo e o mesmo respirava a ela.

Ao Lobo coube vestir o mundo adornado da maga, sendo presenteado com um propósito, uma razão, algo alem de suas andanças.
Obteve também a ambição, sonhos, além de sentimentos que tinham nomeações e profundos significados. Era agora possuidor do saber sobre a  parte lógica da existência, podendo sentir o mundo como a criação de Deus. Pode melhor compreender e sentir o amor.

O encanto que os envolvia então é quebrado, devolvendo cada um a sua própria essência individual.
O laço que permitia a ambos estarem unidos, mesclados, em um outro passo, se desfaz, enquanto se tocam sutilmente, olhando um sem desviar o olhar do outro.

Era momento de cada um seguir seu rumo, levando consigo parte do que fora disposto pelo outro, uma pequena semente dentro de si, para nunca se esquecerem, nem esquecerem o presente que a vida lhes proporcionou. 

O lobo segue floresta adentro, uivando como nunca uivara antes, com intensa paixão, repleto de sentimento.
Passara agora a compreender sua existência de uma forma diferente, a si mesmo como único, como uma expressão da vontade de Deus.

A maga segue de retorno à cidade, tocando as arvores, sentindo a mata lhe tocar, como se fossem um só com ela, em grande harmonia, aproveitando a agradável sensação de fazer parte de tudo, deixando a vida fluir livre através de si intensamente. 

Ao longe então consegue ouvir sua mentora que preocupada com sua demora a chama sem cessar, quando por fim a encontra, percebendo que sua discípula já não era mais a mesma.

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